Lifestyle

12/06/2017

*Por Rafael Duarte, equipe Miramundos

Ainda atravessávamos a Ponte Rio-Niterói em direção à base da Marinha na Ilha de Mocanguê, em Niterói, quando o sol revelava a silhueta no horizonte dos barcos aos quais iríamos nos juntar na Baía de Guanabara minutos depois. Só quando subimos as escadas com nossos equipamentos e colocamos os dois pés a bordo do navio NDCC Almirante Saboia (G-25) que a ficha caiu.

A Miramundos estava indo para a Ilha da Trindade. O frio na barriga trouxe aquela sensação de criança ansiosa que teria que cumprir a penitência da espera por quatro dias — o período da viagem de ida — até finalmente alcançarmos o último território brasileiro ao leste.

Aquilo que pensávamos que seria apenas uma etapa a se cumprir, a dos trajetos de ida e volta, como quem pega um avião, se desvendou a primeira e incrível surpresa da expedição. Para civis que éramos ali, tudo era uma descoberta. A começar pelo fato de morar por oito dias (4 de ida e 4 de volta) em um navio de guerra de 137,5m de comprimento e 18m de boca, junto com uma tripulação de 300 marinheiros em missão ou em treinamento. O Almirante Saboia, também conhecido como Hippo entre os militares, é um navio da Marinha do Brasil de desembarque de carros de combate (NDCC).

Para se chegar em Trindade, só mesmo com a autorização deles, que não só nos convidaram para acompanhar a missão dos pesquisadores, mas também nos guiaram nos dias que se sucederam. Liderado pelo comandante Nelson Leite, com quem tivemos a oportunidade de muito conversar e aprender nos dias da viagem, o anfíbio da frota brasileira acumula uma história incrível, já tendo sido incorporada à Royal Navy da Inglaterra em 1967 e participado da Guerra das Malvinas e do Golfo.

Logo nas primeiras horas, descobrimos a razão de estarmos num navio de guerra para substituir o contingente da ilha que levava pesquisadores. Além da missão principal deles, demos a sorte de embarcarmos com centenas de marinheiros que estavam ali também para treinar, aprender e se desenvolver em ofícios que fazem parte da formação militar desta força armada — que é responsável por proteger um patrimônio nacional, a chamada “Amazônia Azul”.

Com a Ilha da Trindade e o arquipélago de Martins Vaz como territórios brasileiros, o Brasil ampliou consideravelmente seu território marinho. E esta área toda triangulada com a ilha ganhou este nome que remete ao maior patrimônio natural brasileiro em terra. Ou seja, a Amazônia Azul é uma Zona Econômica Exclusiva brasileira de 3,6 milhões km², área oceânica que corresponde a aproximadamente metade da nossa área continental.

Atualmente o Brasil reivindica junto à Organização das Nações Unidas (ONU) 900mil km² desta área, que considera ser de extrema importância estratégica, além de um berço de riquezas naturais e biodiversidade de valores inestimáveis.

E foi neste contexto que aquilo que poderia ser uma mera viagem de barco, se desdobrou em uma aventura incrível que nos surpreendeu a cada milha navegada. A bordo, nos adaptamos à rotina de refeições (podem ser servidas até 1.800 por dia), normas, condutas, adestramentos e treinamentos físicos dos militares.

Em horários variados, eles aproveitavam a viagem para desenvolver uma série de treinamentos de emergência que iam desde testes de equipamentos, adestramentos de abandono de navio a incêndios. Um dos exercícios mais importantes foi o de decolagem e pouso do helicóptero que se juntou à embarcação em movimento. Tivemos a oportunidade de registrar e ver de perto cada momento e conversar com os marinheiros sobre esta experiência a bordo, que para muitos também estava sendo uma grande aventura.

Na expectativa da chegada à ilha, sabendo que teríamos pouquíssimo tempo para explorar os destinos principais, tínhamos noção que seríamos muito exigidos fisicamente naqueles dois dias. E logo sentimos a necessidade de movimentar o corpo, já que temíamos ficar quatro dias sem fazer nenhuma atividade física.

Para nossa surpresa, fomos convidados pelo próprio comandante Nelson para integrar os treinamentos físicos funcionais dos militares, que eram realizados no convoo ao pôr-do-sol. Uma oportunidade inesquecível de treinar junto com tantos feras numa plataforma flutuante em movimento, numa cena que nem nos nossos devaneios mais criativos poderíamos ter imaginado que aconteceria.

Rapidamente fizemos amizades com os oficiais e ganhamos sinal verde do comando para poder acessar também o tanque-deque, que é a parte interna do navio destinada a abrigar carros e tanques, área também usada para treinamentos físicos ou técnicos. E lá frequentamos diariamente enquanto estávamos no Almirante Saboia.

Quatro dias depois, nosso despertador tocava antes do sol nascer, pois pelos cálculos, quando o primeiro raio de sol aparecesse nós já poderíamos avistar a Ilha da Trindade no horizonte, a 1.167km da costa. Pegamos nossos equipamentos no escuro, avançamos pelos corredores balançantes do G-25 e subimos para nos juntar aos militares que nos acompanharam ao passadiço. Ao alto enxergamos o paraíso ao longe entre o preto do mar e o laranja do céu. Fizemos as primeiras imagens da montanha que se ergue no meio do oceano.

Deixamos as mochilas de roupas para seguir de bote e subimos com nossos equipamentos no helicóptero, dois de cada vez. Do alto demos um sobrevoo de 360º na ilha em minutos que não lembramos de termos respirado ou piscado.

A nossa saga em terra continua na próxima reportagem da série. A “Expedição Miramundos – Ilha da Trindade 2017” foi realizada a convite da Marinha do Brasil para a filmagem do documentário que tem patrocínio da AllStar Brasil Seguros, SPOT Brasil e Sobrebarba e apoio da GoPro, Mormaii e BT Bodytech.

Acompanhem e sigam @Miramundos no Instagram e no Facebook.

Imagens: Rafael Duarte e Flavio Forner

Rafael Duarte faz parte do projeto de expedições Miramundos.

MENSAGEM_CONFIRMACAO